Préfacio às crônicas
Bom "Olá \O/", é isso que se deve dizer quando se encontra alguém? Eu já não sei mais... Existem tantas regras para tudo, e eu não quero seguir nenhuma delas enquanto estiver contando minha história. Isso não significa que não seguirei nenhuma delas ou que seguirei só algumas; isso significa que seguirei as minhas próprias regras, derivadas ou copiadas inteiramente do resto do mundo... Enfim, subjetividade.
Esta é a primeira crônica que posto aqui, então nada mais justo que eu me apresentar... Eu sou a Larissa — pelo menos atualmente atendo por este nome. Eu, por ser uma garota trans e pessoa de gênero fluido, tenho uma vivência distinta da maioria da população. Por isso, e por gostar de escrever e ler (mesmo que não faça bem as duas coisas), decidi há muito tempo escrever crônicas.
Tenho hoje em dia uma leve má impressão sobre escrita de crônicas — principalmente pelos boomers que tentam normalizar de forma errada o que pra eles nunca foi normal. Vejo também a suavização de temas relevantes, como a miséria, atentados ou assassinatos. Eu, por outro lado, gostaria de contar as minhas crônicas como a catarse da minha vivência difícil, igual a vida de todes. Não deixarei de descrever a seriedade dos fatos que aparecerem, mas tentarei escapar, de uma forma mais ou menos saudável, desta realidade tão tóxica.
De quando uma jovem sente disforia no seu dia a dia, e pede ajuda para si
A vista se esmaesce em uma manhã fria. Ela está com um casaco grosso, rosa pastel, com o forro peluciado em tons vermelhos framboesa; a garota se atrasou 10 minutos, mas o que ela poderia fazer? Com o tanto de poluição que entra em seu nariz no caminho para cá, ela só poderia pedir para adiar esses 10 minutos o evento...
Quem é esta garota na fila do pão, para pedir isso? Ninguém. Então ela deve entrar em silêncio, escolher um lugar ao fundo, e não atrapalhar. Não importa o quanto de sono sinta — ela pode até dormir, mas por sua conta e risco de perder a explicação. As duas primeiras horas se vão, seu joelho dói, e são 15 minutos que a separam do momento de crise...
Após uma curta conversa com um homem cujos pais deviam gostar bastante de uma certa banda dos anos oitenta, ela retorna para as últimas duas horas.
A garota sabe que não é a única ali — tanto por estar em volta de cinquenta ou mais cabeças, quanto por saber que não é apenas ela que parece o que não é... Mas poxa, a menina olha para as outras pessoas que são iguais a ela, e lembrando do que ouviu duas semanas antes, a moça então pensa:
Neste momento, ao se ver presa na sua cela de metal e madeira, ancorada pelo tempo que está começando, derivando a cada segundo mais e mais para o horizonte espurgante do convívio com as outras pessoas semelhantes a ela — a garota se vê e vê o mundo se tornando o que talvez, sem os sentidos, ele seja de verdade: cinza, com toques azuis, sujo, fétido e rachado. Sem vida.
Lá está ela, uma pessoa que também já fez parte inteiramente deste mundo, que pela memória tão recente do que era — ter um esgoto verde, viscoso e que cheirava irracionalidade e desespero — se observa agora como a fonte de uma impureza só um pouco mais azul que a viscosidade destes rios que parecem querer reinfectá-la. A menina se sente assim. Não obstante, percebe tão logo a pressão no centro de sua cabeça empurrando alguma coisa nos fundos de seus olhos e para baixo, em direção ao coração. Seu nariz se aguça, se contrai — e ela sabe o que vem aí.
A garota tentou, por um ano e meio, lutar contra tudo o que falavam que ela era, e ela sabia que não era. Sofreu e gritou desesperadamente por ajuda, no calabouço escuro, úmido e frio, embaixo do palco da sua própria peça chamada "vida". Quis saber e tentou perguntar para as outras pessoas iguais a ela, quando começaram o seu processo de conhecimento, como descobriram que sentiam a mesma coisa que ela — e quais os objetivos finais delas. Ninguém lhe deu ouvidos.
A sua voz já era muito dissonante do que ela pensava ser, sua luta para sobreviver se comunicando já estava esgotando sua humanidade. Três dias antes, ela tinha virado objeto de desejo e prazer na mente e nas palavras de um homem estranho.
O tempo acabou, e ela passou por ele como sempre fez, abstraindo coisas, se ressentindo de outras — um dia mais perto do seu verdadeiro fim.